Laranja mecânica

A Chevrolet trouxe o Chevette para ser o modelo de entrada na década de 70. O que ela não imaginava era a criatividade de seus proprietários que deixariam o pacato modelo muito mais divertido

Texto/fotos: Rafael Micheski

O mercado brasileiro de automóveis começava a sentir as consequências da crise do petróleo que tomava forma em 1973 e 1974 e traria o foco para os modelos de baixa cilindrada. VW Sedã, nosso Fusca, Ford Corcel e Dodge Polara eram os concorrentes diretos do recém-chegado Chevrolet.

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O pequeno Chevrolet Chevette foi lançado no Brasil em 1973 e tinha como objetivo encontrar seu espaço entre os veículos populares. O Chevette é baseado no Opel Kadett que também cedeu sua plataforma para a Chevrolet lançar produtos em outros países como Estados Unidos, através da Pontiac, Austrália, com a Holden, Japão, com a Isuzu, e Inglaterra, através da Vauxhall.

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A GM também fabricou na Argentina uma versão do Opel Kadett, entre 1974 e 1977, vendido como Opel K-180 com quatro portas e motorização desenvolvida a partir do motor 6 cilindros em linha Stovebolt de 194 pol3 com 2 cilindros a menos que ficou conhecido como Chevrolet 110, com 1.8 litros, semelhante ao do nosso Opala 4 cilindros, mas com deslocamento reduzido.

Salada de motores

Falando em Opala, o motor de 4 cilindros 2.5 desenvolvido também a partir do motor Stovebolt foi oferecido como opção econômica em relação ao “6 canecos”. Primeiro, com 153 pol3, seu desempenho era apenas satisfatório para movimentar os 1.100 kg do Opala com 80 cv e 18 kgfm de torque a baixos 2.600 rpm até o ano 1973. Com algumas melhorias na admissão e mudança no curso do virabrequim, a versão de 151 pol3 ganhou 2 cv e equipou os opalas a partir de 1974 e o motor 151-s, com coletor de admissão em alumínio e carburação Weber 446, saltou para 98 cv e equipou as versões SS 4 do Opala e Caravan.

O motor do Chevette brasileiro era o OHC 1.4 a gasolina e foi o primeiro montado no Brasil a ter comando de válvulas no cabeçote acionado por correia dentada. O desempenho era modesto: 65 cv a 5.800 rpm e 10,3 mkgf de torque a 3000 rpm (SAE), mas em um carro leve com 870 kg cumpria seu papel.
Aproveitando o baixo peso de 870 kg, o Chevette sempre chamou a atenção para peripécias. Era um carro de tração traseira com motor dianteiro pequeno, muitas pessoas viram potencial dessa configuração. Hoje podemos basear nossas maluquices como antigomobilistas e entusiastas de automóveis clássicos com uma rápida consulta na internet, mas na década de 70 o que mandava era a criatividade.

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Chepala

Sempre surgem centenas de dúvidas quando falamos de troca completa de mecânica. Peso do motor, qual câmbio usar, fixação dos coxins, suspensão, equilíbrio de massas do carro (aumento ou diminuição do peso na frente ou na traseira), direção, etc.
Como falamos anteriormente, a adaptação do 4 cilindros do Opala já havia sido feita de fábrica na Argentina e não seria uma grande dor-de-cabeça trazer essa prática para o Brasil. Uma ótima relação custo/benefício com desempenho um pouco fraco no Opala, mas que ficaria muito interessante em um carro pequeno. O 4 cilindros 2.5 era a opção certa para quem não queria necessariamente trocar de fabricante no caso de um swap de motor.

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O motor 2.5 do Opala 4 cilindros cabe como uma luva no cofre do Chevette

A diferença de peso dos motores 2.5 do Opala e o original 1.4, não é tão grande. Enquanto o 2.5 pesa 158 kg, o 1.4 pesa 136 kg, são 22 kg a mais, algo fácil de ser compensado no equilíbrio do carro (diferente da adaptação do 6 cilindros 4.1 com 200 kg e modificações maiores no cofre). A posição do 4 cilindros também é semelhante, apesar do OHC original 1.4 do Chevette que usa fluxo cruzado, enquanto o 4 cilindros do opala possui fluxo simples e aproveita a posição do coletor de admissão e de escape do mesmo lado para a utilização do coletor de admissão aquecido.

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Laranja 2.5

Everton Keler é colecionador de bons carros antigos. Ele encontrou o Chevette a venda com a carroceria pintada, porém o carro estava todo desmontado.
Contando com a experiência do pessoal da Adapta Antigomobilismo, o carro foi tratado com carinho e remontado em cerca de 15 dias com a nova mecânica 4 cilindros 2.5. Para isso, precisaram ser feitos alguns ajustes no túnel do carro para que fosse possível encaixar a capa seca do câmbio do Opala, que foi adaptada para o câmbio de 5 marchas dos últimos chevettes.

O motor utilizado no Chepala do Everton é um 2.5 totalmente original e usa carburador Weber 446 a gasolina. Os coxins utilizados também foram do Opala, mas com um retrabalho nas borrachas para assentar o motor da melhor forma possível devido às diferenças de dimensões entre o cofre dos dois carros e da posição da fixação do motor. Radiador também veio do Opala 4 cilindros e freios ficaram por conta do conjunto do Chevette 1.6s com discos, pinças e servofreio. Como havíamos comentado antes, a diferença de peso entre os dois motores não é tão grande, portanto, a suspensão recebeu amortecedores dianteiros com cerca de 25% de carga a mais que a configuração original e a suspensão foi rebaixada com molas retrabalhadas.

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A perfumaria do carro é de ótimo gosto com diversas peças do cofre do motor cromadas como waterneck, suportes dos coxins, batentes dos amortecedores, tampa de válvulas, polias, entre outros ítens, como a trava da bateria do carro. Cada detalhe é de encher os olhos de todo entusiasta de antigos.

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De longe dá para ver como esse Chepala é impecável de carroceria. A cor pintada é o laranja boreal o alinhamento de para-lamas, portas, capô, tampa do porta-malas é de dar inveja a carros recém saídos da fábrica. A grade dianteira tem a face externa dos frisos pintada na cor prata e o cromado dos para-choques, saltam aos olhos na primeira vista. No entorno do carro, os frisos de alumínio quase finalizam o visual, mas faltava uma parte importante. Para fechar com chave de ouro a parte externa, Everton escolheu as famosas rodas modelo aranha que foram febre nos anos 90 e receberam uma reedição em aro 17 pela Big Rodas, no catálogo, o modelo está descrito como BRW-890, os pneus que calçam muito bem os grandes aros 17 são os Landsail medida 195/40 que conferem um ar invocado para o baixo Chepala.


No interior, nada denuncia o que há debaixo do capô. Bancos com forração em courvim preto novo, forrações de porta e maçanetas novas, a manopla de câmbio ainda é identificada pelo engate de 4 marchas, apesar do novo câmbio de 5 marchas.

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O painel sóbrio da versão SL foi encapado em couro para proteger da luz solar e os instrumentos são originais, com velocímetro, mostradores de temperatura de água e volume de combustível além das luzes espias, apenas com fundo imitando madeira. No painel central, um aparelho de som contemporâneo com entrada USB o console é íntegro, não há trincos ou riscos e a forração em carpete está perfeita.


Foram apenas 3 meses que separaram o carro chegando desmontado na oficina até a finalização da parte elétrica e estética, poucos projetos conseguem um resultado tão rápido e digno de ser chamado de clássico.

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