A Perua do Tio João

Chevrolet 3100 Carryall Suburban 1950: A frente e toda a cabine da perua do Tio João era idêntica a essa. O resto era um mini coletivo.

Há algumas lembranças da infância jamais se apagarão, não importa quanto tempo tenha se passado. Essa é uma das mais vivas que tenho na memória.

Por toda a minha vida, sempre morei na zona sul de São Paulo. Meus primeiros 21 anos se passaram, mais precisamente, no bairro do Jabaquara. A casa onde vivia ficava a uns 15 minutos da estação de metrô que leva o mesmo nome do bairro. Nos arredores estão alguns colégios particulares, tradicionais da região, como o Cetec, Divina Pastora e o Santa Terezinha.

A escola onde consegui uma bolsa de estudo, tinha o sugestivo nome de Sementinha Escola Montessoriana. Estudei lá de 1987 a 1995. O uniforme, no início, consistia em uma calça marrom escura e uma camiseta beige, com uma planta enorme estampada na frente. Depois, a planta foi convertida em um escudo em formato de feijão. Posso dizer que minha classe cresceu junto com a escola, pois uma série nova era aberta assim que passávamos de ano. E assim foi até a 8ª série.

Como qualquer estabelecimento de ensino da região, o Sementinha tinha pessoas que ofereciam o serviço de perua escolar. Naqueles tempos, as Kombis eram a escolha óbvia, menos na minha escola. Pela zona sul, desfilava um Caminhão Chevrolet (1950 acredito eu) transformado em ônibus escolar!

Ao invés da tradicional cor branca desse tipo de transporte, a trapeizonga tinha as cores da escola, coincidentemente ou não. Era em dois tons, marrom e beige – como em nosso uniforme – com a faixa amarela e a inscrição “escolar” em suas laterais. Ao volante, um senhor, negro, magro e muito gentil, que conhecíamos apenas como Tio João.

Apesar de ter as dimensões de um caminhão transformado em ônibus, o veículo era conhecido como ‘Perua’ do Tio João. E como aquele negócio chamava a atenção. Tinha mais de 5 metros de comprimento, cara de pick up chevy dos anos 50 e um esquema de cores inusitado.

O interior era assim: Exceto pelo banco do passageiro, era essa a visão que tínhamos ao descer da "Perua".

Por dentro, a parte da frente, era idêntica a da pickup e do caminhão. O volante, os detalhes do painel, alavanca de câmbio, eram iguais a da foto aqui postada. Só havia o banco do motorista e a ajudante sentava logo após a porta do passageiro. O assento dela era de lado, numa posição semelhante ao dos cobradores no transporte coletivo.

O mais interessante ficava por conta da extensão feita para transformar o enorme Chevrolet em ônibus. Como foi concebido para transportar crianças, tudo era em miniatura. Eram duas fileiras de bancos, acolchoados, revestidos em couro e numa cor caramelo, que abrigavam duas crianças cada um. Esses assentos eram iguais aos dos ônibus mais antigos, com uma barra de ferro contornando o encosto. No meio, um enorme corredor onde um adulto, de estatura média, era capaz de andar quase que engatinhando.

Sempre que chegávamos ao destino, o Tio João abria a porta do passageiro e lá ajudava, pacientemente, cada uma das crianças a descer, sempre com algo simpático para dizer. Lembro de uma vez, ter perguntado a ele qual era a kilometragem do bichão. Ele me disse um número que obviamente não em recordo agora, mas ressaltou que o odômetro já havia zerado várias vezes.

A última vez que andei na Perua do Tio João foi em 1994, quando estudava em uma unidade e passava o resto da tarde em outra. Na verdade, já estava bem grandinho (12 para 13 anos) para me acomodar nos banquinhos. Me sentia quase como o Guliver lá dentro.

Acho que pouco tempo depois, ou naquele mesmo ano, a perua do Tio João foi desativada e nunca mais a vi rodando. Do próprio Tio João, também nunca mais ouvi falar. Dois anos mais tarde, andando de carro, avistei o ônibus, com as mesmas cores, mas sem a inscrição ‘escolar’ na lateral. Não havia mais bancos e, se não me falha a memória, todo o assoalho da parte traseira havia sido removido, ficando só a cabine e a carroceria.

Sementinha circa 1988: Soube também que a escola já não existe mais. Agora, só memórias como esta. Onde antes era o gramado da primeira unidade, hoje é o estacionamento de uma igreja evangélica, na Rua Grumixamas.

Quando éramos criança achávamos o máximo andar naquele veículo tão exclusivo. Mas com a aproximação da aborrecência, veio junto, a vergonha de estudar em uma escola com nome de berçário, usar uniformes marrons e chamar tanta atenção no bairro.

Pensando hoje, obviamente,  era pura bobagem.

É mais provável que, quem morou nas redondezas das estação Jabaquara  no final dos anos 80, começo dos 90, lembre-se do grande Chevrolet marrom, nos transportando em trajes que combinavam com o veículo, do que uma Kombi branca qualquer, cheia de pequenos com uniformes azul-marinho.

Espero que um dia, alguém leia esse post e me diga por onde andam a “perua” e o Tio João.

12 comentários Adicione o seu

  1. Cyntia Faria disse:

    É, a perua do Tio João é uma lembrança de infância muito feliz!
    rsss Obrigada por resgatá-la da minha memória!
    Beijo

    1. Cyntia! Obrigado pela visita!

      Beijos.

  2. grapiglia disse:

    desde criança já queria saber kilometragem?haha
    eu tenho 14 anos e,pra mim i e volta de van azul já é meio estanho né,mas marrom?
    mas ela devia se bem bonita assim,melhor eu acho que uma splinter :p

    1. Quando a gente é criança não tem muito a noção das coisas, pra mim, aquele negócio era do tempo do Brasil Império…rs

  3. Alan disse:

    Nossa, eu estava tentando puxar esse gigante na minha memória, já que estudei no sementinha também, mas foi de 1995 pra frente, pena, não cheguei a tempo de andar na “perua”, mas a foto do colégio me fez lembrar dos bons anos que passei la, quem sabe os melhores anos da minha vida.

    Parabéns pelo post!

    1. Alan,

      Você entrou no ano em que saí. Com certeza, Jamais esquecerei o tempo em que fiquei lá. Ainda mais com personagens como o Tio João e sua jabiraca…rs

      Abs.

  4. Marina disse:

    Caraca!
    A perua do tio João!!!!
    Eu ia com ele pro colégio!!!
    Era demais mesmo o carro.. e ele tambem…

    lembro-me de ouvir “raça negra” no caminho pro colégio… TENSO
    lembro que a unha do dedo mindinho dele era gigante tambem e eu estranhava muito…

    provavelmente acho que andamos junto nessa perua….

    1. Olá Marina!

      Além da unha do mindinho enorme, ele costumava descer primeiro e ficar ajudadando as crianças, uma a uma, a descer da “Perua” dizendo “Tchau princesa, tchau princípe, tchau querida, até mais campeão…” e assim sucessivamente. Em qual ano você estudou lá?

      Abs.

  5. emerson disse:

    eu fui professor de judô na sementinha, Daniel você foi meu aluno… aquela perua do tio João bateu na descida da antiga garagem da CMTC, perdeu freio…

    1. Alexandre disse:

      Caracas…eu não acreditei quando ví essa foto!!! Estava fazendo uma pesquisa aleatória e me lembrei da Sementinha. Na primeira pesquisa de imagem me aparece essa maravilhosa surpresa!!!! Eu estou alí na foto, o segundo de cima para baixo e da esquerda para direita…Meu Deeeeeeeus!! Me lembrei de tantas coisas…eu amava esse colégio! Me recordo da professora da foto, CIda…me emocionei demais!!!!!

  6. Creio que exista uma grande possibilidade de vc ter conhecido minha mãe. Ela lecionou nesta escola até 90, se não me engano. Seu nome era Marcia Alves e ela era apaixonada por essa escola ^^

  7. Marcia disse:

    Eu também tinha vergonha do uniforme marrom e do nome “de bebe” da escola ! Eu me lembro vagamente da Perua do tio Joao, mas nessa foto eu vejo a Tia Cida (meio brava) e a Tia Lourdinha, nao é ? Também fiquei emocionada ! Obrigada pelo artigo

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