Relatos de uma Noite

Por Rodrigo Tavares

São Paulo, 1:06 da madrugada de quarta para quinta-feira, hora de voltar para casa após uma noitada interresante. Olho, ainda de longe, para minha companheira de aventuras, a Marajó, com um sorriso malicioso. Ela já sabe o que lhe espera e está pronta para isso.

Com calma, inicio meu ritual antes de sair.  Chego silenciosamente ao seu lado, abro a porta, sinto o cheiro que só os carros antigos tem. Injeto um poquinho de gasolina para pegar fácil, puxo o afogador e boto o motor a rodar. O ronco parece fraco, a alimentação a base de etanol faz isso até esquentar. Acordei minha amiga de madrugada, peço desculpas a ela e falo que é hora de voltar para casa. Com pressa, pois daqui a algumas horas tenho compromisso com meu trabalho.  Ela me responde como sempre, feliz e pronta para ir. Antes de sair

Conta Giros, Rodrigo, histórias.

acerto o shift light para 5000 rpm, abaixo do limite de giro mas na faixa de potência máxima. Eu e ela sabemos que essa luz vai se acender inúmeras vezes no caminho.

Começo minha jornada lentamente e discretamente. Estou em um bairro residencial, não quero fazer barulho, é hora das pessoas dormirem. Após alguns poucos minutos chego na Marginal Pinheiros, hora de acelerar. Temperatura no lugar certo, nenhum barulho anormal, tudo perfeito, já saio da ponte com o acelerador encostado no assoalho. Segunda marcha, o shift light mostra sua utilidade e como num balé entre homem e máquina, passo para a próxima marcha, que logo acaba. Hora de espetar a quarta marcha, mais uma vez o movimento suave mais firme, sem hesitação, e o giro volta a subir. Presto mais atenção no contagiro do que no velocímetro, quando a Mary me lembra: “Olha o limite de velocidade, não quero ficar suja”. “Verdade, desculpe” respondo amigavelmente. Já estava em uma velocidade de 3 dígitos. Reduzo para os 90km/h permitidos na via e passo a quinta marcha. Emoções agora, só quando voltar para os bairros.

Na Marginal me vem um pensamento, São Paulo, a cidade que nunca dorme, está dormindo, me mostrando suas belezas desconhecidas. A Ponte Estaiada, prédios acessos, mas ninguém para acordado para ver, somente eu, a Mary e o James Hatfield gritando Seek and Destroy no rádio. Será que todos se foram e deixaram a cidade para mim? Que sensação maravilhosa, olho para a frente e vejo o asfalto iluminado pelo meu farol  se fundir a  paisagem urbana iluminada, ao rio, que nessa hora parece limpo, mas nada de lantenas. Para trás é a mesma visão. Mudam as luzes mas a falta de faróis é igual.  Incrível como algumas poucas horas antes, mal conseguir andar a velocidades de 2 digitos e, agora, preciso prestar atenção para nao chegar nos 3.

Cidade bela quando vazia, sensação de liberdade indescritível.

Ponte Estaiada (foto: Guto Magalhães)

Após alguns minutos pensando sobre isso é hora de voltar para os bairros. Entro para a pista local, diminuo a velocidade, ainda em quinta marcha, sempre respeitando os limites da via. Hora de fazer o retorno da ponte, a Mary sabe como gosto de fazer essa curva. Nós conhecemos todas as ondulações do asfalto judiado, reduzo para quarta marcha, aciono os freios levemente ainda longe da entrada. Chegando perto faço um punta taco para a terceira marcha. Solto o freio, começo a tomada da curva, com o pé no acelerador para manter tudo equilibrado. Curva com pé no freio transfere o peso para a frente, faz o carro ir reto, faço a curva como gosto. A Mary também sabe o jeito que gosto e já se adianta. Escorrega um pouco para o lado até se apoiar perfeitamente. Essa é a hora de colocar o pé no fundo de novo. Já saí como um tiro, enchendo a terceira marcha. A Mary, apesar de ter ótimas qualidades como tração traseira, pouco peso e estabilidade, não tem potência. Todo segundo que se perde sem acelerar são km/h a menos no final da reta. Isso é bom pois te educa e aceita mais erros. Se fosse mais forte e acelerasse antes do tempo, rodaria, depois perderia muito tempo.

Hora de mais algumas curvas, todas feitas da mesma maneira, sem sustos, algumas mais abertas feitas de lado. Sempre procurando a saída de curva mais rápida e com o motor na faixa de torque máximo possíveis.

Finalmente chego em casa. Coloco a Mary em seu quarto, falo baixo: “Boa noite, amanhã vamos com calma, pois isso só pode ser feito quando não tem ninguém”. Ela sorri para mim e responde: “Eu sei, e não sou mais tão jovem, mas adoro nossas aventuras. Boa noite”. No dia seguinte tudo volta ao normal. Passamos a ser mais um homem com seu meio de transporte em uma cidade cheia e caótica.

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1 comentário Adicione o seu

  1. grapiglia disse:

    caara,eu achava que a mary era uma mulher 😡 mto boa essa narração (:

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