Arquivo da tag: Los Angeles

Big Willie Robinson: Paz Por Meio das Corridas

36

Em cidades violentas, a Sociedade Civil e o Estado já tentaram de quase tudo para amenizar o problema, mas duvido que você já tenho ouvido falar em usar o automobilismo, mais especificamente arrancadas, para lidar com a questão. Foi exatamente com essa ideia que Big Willie Robinson criou uma pista de arrancadas e um clube para ajudar a combater a violência entre gangues e a tensão racial na cidade de Los Angeles, nos anos 70.

Robinson começou a lidar com um problema que vinha desde a década de 20. Negros e descendentes de latinos foram relegados a morar em áreas distantes, graças a uma lei local que não permitia a venda de imóveis para não-brancos. Nos anos 50, grupos armados, formados por pessoas brancas, intimidavam de forma violenta famílias que moravam em bairros fronteiriços. Em algumas ocasiões, bombas incendiárias eram lançadas para mandar uma mensagem a aqueles que “ousavam” sobrepujar o apartheid Angelino.

37

O resultado disso, foi a organização de grupos de auto-defesa entre as minorias, que assim como a mafia italo-americana, que a principio tinha o objetivo de se proteger dos ataques das gangues irlandesas, cresceram e se organizaram. Com a injeção do dinheiro das drogas, se tornaram gangues, como os Bloods, Crips e Wah Ching. Ao longo dos anos 60, 70 e 80, esses grupos envolveram toda a cidade e até o país numa escalada de violência.

Mas não só pelas gangues, Los Angeles era conhecida. É também uma das cidades mais motorizadas do mundo onde, independente da condição social ou raça, as pessoas restauravam, envenenavam e / ou customizavam seus carros. A partir desse interesse em comum, Big Willie pensou em dar sua contribuição com o lema “Paz por meio
das Corridas”.

39

A saga de Big Willie começa em 1966, quando as autoridades já vivam uma situação muito delicada. Um ano antes, haviam acontecido protestos no bairro negro de Watts e uma nova manifestação seria um desastre político para os governantes da época. A polícia de Los Angeles haviam notado que as corrida de arrancadas ilegais reuniam uma audiência integrada de brancos, negros, latinos e asiáticos e Robinson era o mais popular entre os rachadores.

38

Os oficiais então, pediram ajuda ao Big Willie, um veterano da guerra do Vietnã que faz parte das Forças Especiais, para organizar, as sextas feiras durante a noite, encontros de arrancadas. Na primeira noite chegou a reunir cerca de 10 mil pessoas e “Boas e Ruins” diria Robinson mais tarde. Na segunda edição, o dobro, segundo relatos da época.

Natural de Nova Orleans, Big Willie era respeitado pelos chefes das Gangues bem como as autoridades policiais, o que permitiu que os participantes seguissem certas regras durante os eventos, como não consumir álcool, drogas ou se exibir de forma perigosa com os seus carros. Surgia assim a National and International Bortherhood of Racers.

41

O programa foi tão bem sucedido que preveniu futuras tensões raciais que outras cidades enfrentaram. Há quem diga que Los Angeles reagiu de forma mais pacífica ao assassinato do Dr. Martin Luther King, graças a esses eventos. O que não aconteceu em outras cidades como Nova Iorque ou Chicago.

35

No começo dos anos 70, Willie e sua esposa Tomiko, que também era sua assistente e secretária, com frequência participavam das corridas, ambos, com Dodge Chargers Daytonas Hemi 1969. Juntos ele criaram uma pista chamada Brotherhood Park Raceway. Nas décadas seguintes Robinson administrou o local, que acabou virando referência e um marco zero para a crescente cena de carros japoneses. A pista foi fechada em 1995. Sua esposa Tomiko faleceu em 2007.

“Quando se trata de carros, não há barreira racial”, Willie disse certa vez a um programa do Discovery nos anos 90. “Chefes de gangues vinham até mim e diziam ‘Willie, você criou um espaço onde podemos vir, correr e se divertir, nós te ajudaremos a manter a paz”.

40

Obviamente, um problema tão complexo não seria resolvido apenas com corridas de carro, mas Big Willie deu sua importante contribuição. Ele conseguiu, por meio do amor mutuo que as pessoas tinham pelos carros, reconciliar, pelo menos durante aqueles eventos, os grupos sociais até então mais antagônicos. William “Big Willie” Robinson Andrew III faleceu em Maio de 2012.

Chevrolet Impala 1964 até de Olhos Vendados

O site da Lowrider Magazine, especializada nos bólidos que literalmente “andam baixo” acredita que um fã da cultura pode estar em qualquer lugar. Desde um professor primário, passando por um médico ou até mesmo um policial. Segundo a experiência deles, você nunca sabe quem é o dono da caranga mais legal do bairro.

Um exemplo, é o ex-jogador da NBA, Cedric Ceballos, que durante anos, está envolvido com os lowriders. Quem imaginaria Ceballos, que atuou pelos Los Angeles Lakers e Phoenix Suns, conhecido pelas suas enterradas, gostava de passar tanto tempo rodando próximo ao solo? Indagou a publicação.

O fascínio do ex-atleta pelos lowriders está diretamente ligado a sua infância. Cedric  cresceu cresceu em Los Angeles e, antes de voar até o aro, precisava ir andando até a escola, no bairro de Compton.  Nessas viagens até o estabelecimento de ensino, as imagens dos carros andando em três rodas, pulando com as rodas da frente ou apenas rodando bem perto do solo, ficaram gravadas em sua retina.

Mesmo com seu talento para o basquete, sua Mãe fez do possível e impossível para que Ceballos chegasse a universidade de Cal State Fullerton para ter uma educação formal. Mesmo não sendo uma universidade tradicional para o recrutamento de jogadores, Cedric atraiu a atenção dos “olheiros” da NBA e foi escolhido pelos Phoenix Suns em 1990. Em sua carreira pela liga americana, jogou em mais quatro times e depois na Europa. Depois de pendurar o tênis, retornou aos Suns onde ocupa um cargo executivo.

Um, dos três maiores sonhos de Cedric Ceballos só foi realizado recentemente. O primeiro deles foi enfrentar Michael Jordan nas finais de 1992-93. Já o segundo, foi ter vencido o campeonato de enterradas quando realizou uma com os olhos vendados, há exatos, 20 anos. O terceiro e último era ver o seu Chevrolet Impala 1964 nas páginas da Lowrider Magazine.”É verdade!” disse Ceballos. “Desde que peguei a primeira edição da revista, sonhava em ver meu carro em suas páginas”.